contexto
Márcia Rocha: Fale sobre Rede para uma IPTV
Márcia Rocha: O que é IPTV?
Definições conceituais para redes em se tratando de computadores estão representadas mundialmente por numerosas bibliografias, bastatando apenas fazermos uma busca na internet para encontrarmos o conceito de REDE tanto no Yahoo Respostas como na Wikipédia e no SciELO. Mas o que pretendemos ao certo nesta busca por definições e explicações sobre “redes”? O que buscamos ao classificarmos e tentarmos estabelecer categorias e níveis entre tais conceitos e seus “agenciamentos”?
No caso da FEBF, estamos até hoje agenciando inúmeros “conceitos” e “acontecimentos” em torno da Educação Pública que ali constituímos em nosso cotidiano coletivo. Experiência e sentidos, desejo e divir… computadores e redes, filmadoras e microfones… amizades e afetos. Para tanto, se quisermos entender ou tentar descrever o “nosso” sentido de “rede” ali na FEBF, basta notarmos seu conceito já é o que dizemos/fazemos dela a cada dia e, seu sentido só pode ser expresso no e durante um “movimento” coletivo qualquer. Eu diria que o “devir FEBF” atualmente poderia ser “descrito” como, já sendo, o movimento que eu, você, Alita, Sobreira, Rodrigo, Alcântara e o Sandro, por exemplo, fazemos ali. Cada um com a sua “singularidade” e com desejos e interesses diferentes na FEBF, mas mesmo assim nossa agenda “comum” nos conecta em múltiplos instantes, de dia ou de noite, de dentro ou de fora da faculdade… são as inteligências e afetos de cada um de nós, nossas singularidades e intensidades que estão em rede. E nossos corpos, nesse caso, é que são os avatares!
Daí, mais interessante do que perguntar sobre o que é “rede” e “IPTV”, seria, tentar encontrar algum outro sentido apenas observando o “lugar comum” que compartilhamos ali em “Duque de Caxias”. Isto é, que compartilhamos “ali”, “aqui”, “aí” e “lá”… perceberam que o sentido de “rede” na FEBF já está dado mesmo antes dos computadores e da internet entrar em cena? As redes são sempre humanas e as tecnologias são apenas instrumentos de mediação, comunicação e linguagem. São meios e interatividades exercidos por nós a todo momento, presencialmente no ambiente físico do prédio ou por telefone, off-line por email ou online por chat, em turmas e grupos ou em duplas e trios. Enfim, sempre estivemos em “rede”, basta agora sabemos gozar das tecnologias da informação e comunicação para melhor agenciarmos em potência as nossas conexões e contatos com outros seres humanos, afinal, é isso que nos faz sermos aquilo que somos.
Neste sentido, da FEBF já sendo percebida em/como “rede”, ela seria apenas como um “nó”, um ponto nesta grande “rede”/”rizoma” mundial, tanto no sentido de planeta e bios como no de internet e bits. Para isso basta notar que geograficamente sabemos “acessar” o “endereço”/CEP da FEBF por vários veículos, nos conectamos via trêm, ônibus, taxi, moto-taxi, a pé e etc. Sabemos nos conectar a ela também via web, diretamente via Canal Interativo Kaxinawá (NING) ou indiretamente via email, orkut, facebook e msn. Sendo assim, a FEBF não é um centro desta/nesta rede. Ela é apenas um “nó”, assim como os demais seres humanos, computadores, automóveis, câmeras digitais e celulares que compõe este nosso “rizoma” e, estar “em conexão” é nosso deivir social-planetário-coletivo na www.vilasaoluis.net.
A Rede Globo, por exemplo, se descreve como uma “rede”. Uma rede de TV, por considerar a sua programação como sendo (re)transmitida e produzida a partir de múltiplos “nós” espalhados pelo Brasil e pelo mundo. A Al-Qaeda, famosa rede terrorista que também atua com a sua potência distribuída em “nós”, em seus múltiplos “nichos” de sentido, estratégias e ação, capaz de agir ao mesmo tempo em múltiplos espaços simultaneamente com suas “células” independentes. Contudo, independente das definições de “rede” existentes, é importante nunca esquecermos que uma outra definição sempre é possível justamente por essa inevitável hibridização entre “palavras” e “coisas”. Afinal, o que é melhor, “falar” sobre sexo ou “fazer” sexo? Falar sobre desejo ou desejar?
Mas já que um pouco de “sexo verbal” não faz mal a ninguém, podemos “falar sobre rede para uma IPTV” da seguinte forma (até porque as “preliminares” e a “imaginação” já fazem parte do “processo”):
#1 – Os conceitos clássicos de TV implicam, necessariamente, em perceber o áudio-vídeo veiculados analogicamente por frequência VHF. Com transmissão por antena de alta frequência (apenas envio), cabo ou satélite e recepção direta por televisor (apenas recepção). Basicamente neste esquema.
#2 – IPTV/WebTV, por sua vez, seriam os fluxos de áudio-vídeo veiculados digitalmente por múltiplos protocolos de transmissão/recepção. O computador tanto serve para receber (download) como para enviar (upload) fluxos multimídia em rede (streaming), seja por internet (web) ou rede local (intranet). Lembrando que o mesmo princípio serve para a WebRadio e o VOIP.
Logo, percebemos que no esquema #1 não há interatividade entre o transmissor e o receptor e, no esquema #2 embora haja interatividade total, há a necessidade de se conectar por rede de computadores ao áudio-vídeo. Sendo assim, o primeiro esquema é mais elementar e barato, contudo, o segundo garante maior qualidade. É justamente pensando no hibridismo (analógico-digital) possível que podemos agenciar/constituir múltiplas “máquinas de guerra” para nos expressarmos socialmente, utilizando as tecnologias áudio-visuais (TV e IPTV) e explorando as possibilidades interativas proporcionadas pela Web 2.0.
Não se trata, sobretudo, de “substituir” a TV pela IPTV ou pela TV Digital e, sim, refletir/produzir uma comunicação em potência capaz de tornar “tudo em uma coisa só”, para que possamos tratar o áudio-vídeo como comumente os apropriamos/percebemos/produzimos pela TV e Cinema de nossos tempos e gostos, mas lhes atribuíndo outras linguagens complementares para então potencializar a comunicação, como na hibridização simultânea também com texto, imagens, chat, video-chat, sons, compartilhamento de arquivos e etc. Metalinguagem acima de tudo, aí teríamos de fato uma “TV Interativa”, que não é TV (analógica ou digital) e não é IPTV extamente por seus conceitos não darem conta desta nova forma de fazer/ver TV em dias de internet e interatividade global.
Para esta nova geração que constitui o planeta atualmente, “informações massificadas” já não faz sentido. Mas a coexistência do velho-novo no mesmo espaço-tempo nos causa mesmo esta “relativa” imprecisão sobre o que estamos fazendo e como, contudo é apenas na “ordem do “caos” que o “novo” se estabelece por dentro do “velho”, a partir de algum de seus “nós” em processos “simbióticos”, “mutantes” e não-dialéticos. Neste sentido, uma “TV Interativa em Rede” é… uma TV VHF é… uma IPTV é… uma TV Digital é… Internet é… Celular/Smartphone é… WebCam é… tinha verde nas paredes… é sobretudo o prazer de fazer e ver acontecer, de afetar e ser afetado. Para mim, isto é “IPTV” e é isso que fazemos na FEBF, embora nossas híbridas práticas “canibalizantes” não “caibam” no “conceito clássico de WebTV/IPTV”.
Márcia Rocha: Como acontece essa coisa de rede para IPTV aqui no Brasil?
Não pesquiso, necessariamente, sobre IPTV. Mas sei que há um forte movimento público no Brasil que pretende planejar, prover, regulamentar e fiscalizar as vias de fato para implementação de tal sistema no país. E, neste sentido, pensar IPTV em hibridismo com WebTV poderia considerar outras possibilidades técnicas sobre padrões e plataformas, um otimista projeto de televisão interativa via internet por cabo de eletricidade e, serviço garantido pelo Estado. Nisto sim as “energias” poderiam estar canalizadas sentido pautas públicas sobre o assunto, pois no Brasil este atual esquema “preferido” pelo Governo Federal percebe a IPTV como sendo de uma natureza diferente da internet: a IPTV utilizando uma banda dedicada para áudio-vídeo e a Internet, utilizando outra. Perceber internet e multimídia é o que faz a Web 2.0, por isso acho legal considerar estes fatores sempre que pensarmos em IPTV para nosso país.
Márcia Rocha: Como podemos relacionar IPTV e Educacao?
Márcia Rocha: Fale sobre a IPTV Kaxinawa
Márcia Rocha: Quais as limitacoes (pontos negativos) da IPTV Kaxinawa?
Márcia Rocha: Quais as conquistas (pontos positivos ) da IPTV Kaxinawa?
Uma prazerosa percepção para as práticas com IPTV na Educação é o aluno/professor/comunidade dispor, institucionalmente em projeto coletivo e “comum”, de vários dispositivos tecnológicos e operacionais para produção multimídia nas escolas e universidades. Soma-se a isto a relativa popularização de celulares nas “classes” de “baixa renda”, basicamente capazes de gravar/visualizar arquivos de áudio/vídeo, de sintonizar estações de rádio FM, de armazenar, visualizar e enviar via MMS arquivos de imagens (fotos/vídeos).
E nos termos deste modus operandi social que “invade” cotidianamente as escolas/universidades, deste “campo de imanência” posto às relações formais/institucionais de ensino-aprendizagem, o próprio conceito de Mobilidade – vivenciado majoritariamente pelos habitantes de grandes metrópoles mundiais -, configura outros aspectos de hibridismo nestas novas relações homem-máquina experimentadas por nós na contemporaneidade, sejam os mediados por processos de virtualização ou sejam os mediados por dispositivos de interface (usuário-máquina).
Respeitar esta complexa configuração social de relacionamentos (redes) que inevitavelmente se atravessa por entre as rígidas estruturas curriculares/programáticas dos “saber/ensino sistematizado” por/nas escolas, sobretudo as de acesso público e gratuito, se faz por movimentos que agenciem as potencialidades criativas/produtivas/comunicativas no interior de tais espaços em favor de seus próprios interesses imediatos, muitas vezes aquém das pretensões futuras manifestas nos “planejamentos pedagógicos” institucionais. “Instintos” ou “Instituições”? Conforme provocação de Gilles Deleuze em “Ilha Deserta”, onde argumentou que “O homem não tem instintos, ele faz instituições. O homem é um animal em vias de despojar-se da espécie. Do mesmo modo, o instinto traduziria as urgências do animal e a instituição,as exigências do homem:no homem, a urgência da fome devém reivindicação de ter pão. Finalmente, no seu ponto mais agudo,o problema do instinto e da instituição será apreendido,não nas “sociedades” animais,mas nas relações entre animal e homem,quando as exigências do homem incidem sobre o animal,integrando-o em instituições (totemismo e domesticação), quando as urgências do animal encontram o homem, seja para escapar ou atacá-lo, seja para conseguir alimento e proteção”.
Pensar um “devir” multimídia em rede na Educação é considerar as subjetividades envolvidas em tais dinâmicas, é saber considerar as relações sociais que se afetam mutuamente por redes multi-sensoriais dentro e fora das instituições, nos processos formais e não-formais de ensino. Deste modo, uma IPTV pensada para projetos sócio-educativos/culturais deve pensar, para além da estrutura organizacional e técnica, na mais ampla inclusão destas subjetividades que já constituem a malha urbana/social. Subjetividades singulares que, coletivamente, já habitam zonas as centro/periféricas de relacionamento/socialização nas escolas e universidades, agregando a qualquer “projeto político pedagógico” o desejo imanente a cada uma destas forças que constituem tais espaços: a criação, a expressão e a linguagem. E nesta nossa constante “invenção da vida”, infelizmente são poucos a perceberem que qualquer um pode ser o “roteirista”, “figurinista”, “sonoplasta” “produtor” e “protagonista” de seu próprio “live show”.
Parafraseando (remixando) Glauber Rocha, eu diria aos formandos na FEBF que uma IPTV à Educação se faz basicamente pelo agenciamento de três elementos: “um celular na mão, um notebook na mochila e uma internet na cabeça”!